Considerado Patrimônio Mundial da UNESCO a partir de 2005 pela sua importância educacional, científica e cultural, o Museu tipográfico da família Plantin-Moretus é uma jóia rara no coração da Antuérpia, mais conhecida pelos diamantes e pelo museu do artista Rubens. Negligenciado nos bons guias de viagens sobre a Bélgica, o museu acaba passando despercebido, mas é um ponto de parada imprescindível para qualquer amante ou estudioso da história das artes gráficas.

A visita começa com a imponente fachada do edifício construído no século XVI e continua com o roteiro sugerido pelos monitores: caminhando por uma sala com originais manuscritos, antes da invenção da tipografia e subindo as velhas escadas de madeira, que rangiam embaixo dos nossos pés. Passando por uma sala escola, onde uma professora contava a história do museu a um grupo de crianças, chegamos a uma sala de vídeo, onde acompanhamos uma reconstituição do processo de impressão ambientada nas próprias dependências do museu, utilizando os equipamentos ainda em funcionamento da gráfica. Enquanto isso, jovens estudantes, provavelmente de artes plásticas, se espalhavam pelo museu com suas cadeiras dobráveis, prontos para armá-las, voltar no tempo e começar um desenho de observação. Após acompanhar o vídeo que reconstituía a história da oficina gráfica, continuamos a nossa visita, um pouco descontentes com a iluminação do ambiente, mas cientes de que a mesma replicava a precária iluminação de velas da época.

O Museu abriga uma enorme coleção de pinturas e tesouros históricos do século 16, incluindo a oficina tipográfica mais antiga em condições de funcionamento. Tudo está muito bem preservado, desde a sala de fundição de tipos, a sala de leitura de prova, onde os eruditos religiosos se sentavam na extremidade dos bancos de uma grande mesa de carvalho, até a sala de impressão.

Para além dos amantes da tipografia, o museu atrai visitantes que se interessam em conhecer não somente a casa de uma família que, por gerações, viveu durante o Renascimento, Barroco e o Classicismo, mas também para entender a sua relação com o trabalho e o comércio nestes períodos da história. Lá se tem uma visão da tecnologia daquela época, associada às ideias e crenças, resultando em obras literárias e artísticas de significado universal.

Gutenberg revolucionou a cultura ocidental ao desenvolver a primeira máquina de impressão com tipos móveis, por volta de 1440, substituindo as cópias manuscritas e permitindo a impressão em massa dos livros. A invenção dos tipos móveis teve um efeito transformador sobre a disseminação de informação.

Em pouco tempo, as prensas tipográficas passaram a funcionar nas principais cidades européias. No entanto, como eram feitas de madeira, estavam sujeitas à decadência pela sua fragilidade, de modo que, encontrar uma prensa ainda em funcionamento, fabricada no século 16, é um tesouro raro fornecido pelo museu Plantin-Moretus.

Após os séculos XIII e XIV, a cidade da Antuérpia firmou-se como um dos mais importantes centros econômicos no mercado internacional e lugar de encontro de artistas e intelectuais. Era um centro de intercâmbio cultural europeu, com a importação de elementos chave em especial da Renascença italiana, necessários para inspirar o Renascimento Flamengo, transformando a cidade em um ambiente propício para o desenvolvimento da impressão. Em meados do século XVI, 140 imprensas, editores e livreiros estavam trabalhando na cidade, onde o mercado do livro assumia uma dimensão internacional cada vez maior. A Antuérpia tornou-se o centro da tipografia, juntamente com Veneza e Paris, e principalmente pelo empreendedorismo de Christophe Plantin (1520-1589), entre os anos de 1555 e 1589. Plantin montou sua imprensa e editora, a Officina Plantiniana com um complexo de oficinas adjacentes à sua residência. Primeiramente fundada com copistas e ilustradores, a oficina tornou-se rapidamente a maior empresa de tipografia da Europa. Com a morte de Plantin em 1589, seu genro Jan Moretus (1543-1610) assumiu e equipou a empresa com as melhores prensas da Europa, e foi graças à família Moretus que a continuidade de suas atividades se manteve até 1867. Esta continuidade refere-se às mesmas funções realizadas no mesmo lugar, e isso explica a homogeneidade da planta do edifício do museu, onde o visitante consegue ter uma visão real das atividades da época.

Ao todo, o edifício histórico compreende a mansão e gráfica fundada por Plantin e, em seu estado atual compreende 35 ambientes, que vão desde o quarto dos proprietários, o escritório de contabilidade, o escritório dos copistas, o escritório dos ilustradores, uma biblioteca, até a oficina de fundição de tipos (no sótão do edifício) e a gráfica com tipos (alguns intocados) e máquinas tipográficas. Na época, a mansão era conhecida como Golden Compass (a Bússola de Ouro), porque ficava no coração histórico da cidade. A mansão explica por si só a sua importância na história da impressão, desde a data da construção do primeiro conjunto de oficinas gráficas até 1871, quando o último da linhagem de impressores e editores abandonou a atividade de impressão, dedicando-se à preservação do patrimônio mobiliário e bens da família, assim como os tesouros acumulados ao longo dos séculos.

Este longo período pode ser dividido em três fases principais:

• A empresa próspera de Plantin até sua morte em 1589, que até esta data, já havia produzido mais de 2.450 obras, foi continuada por seu genro Jan Moretus, que fez os melhores trabalhos de impressão com os melhores equipamentos daquela época; seu filho Balthasar Moretus I (1574-1641) consolidou a reputação da empresa, com a ajuda de sua amizade com Peter Paul Rubens, este artista famoso e criador de desenhos e obras excepcionais do estilo Barroco, e que eram universalmente imitados na segunda metade do século 17; e a reputação internacional da Oficina e sua incomparável qualidade de livros que levou a visitas de poderosas figuras como Marie de Medicis em 1631, rainha Cristina da Suécia em 1654 e um número de príncipes e princesas italianos e poloneses.

• A segunda metade do século XVII marcou o início de um período de declínio para a impressão na Antuérpia. No entanto, a Oficina de Moretus manteve sua posição como a maior de Flandres, e seus livros, principalmente religiosos, foram produzidos para o mercado espanhol e também exportados para lugares tão distantes como a China, e para as colônias espanholas do “Novo Mundo”. De 1715 a 1764, consolidou-se no comércio internacional de exportação de livros.

• Apesar da renovação incipiente no primeiro trimestre do século 19, a situação dos Moretus se deteriorava. Não conseguiram acompanhar a modernização das novas técnicas de impressão, em especial o desenvolvimento de prensas mecânicas e rotativas. Edward Moretus (1804-1880) era para ser o último dos editores da família, e após sua última publicação Horae diurnae S. Francisci, em 1866, teve que cessar a imprensa. Em 1871, ele se tornou o curador e colecionador do patrimônio familiar. Assim, a saga Plantin/Moretus acaba e, em 1873, ele negociou a venda do imóvel com todo o seu conteúdo com o governo belga e a cidade de Antuérpia. Em 1876, é criado o Museu Plantin-Moretus.

Christophe Plantin (1520-1589), encadernador e vendedor de livros, que se estabeleceu na Antuérpia em 1549, após fugir de Paris, aonde pelo menos um impressor já havia sido queimado na fogueira por heresia. Em 1555, a cidade já estava estabelecida como um importante centro de impressão de xilogravuras, gravuras e Plantin abriu sua própria imprensa, e logo tornou-se um líder do comércio de livros.

Seu primeiro livro impresso foi La Institutione di una fanciulla nata nobilmente, de J. M. Bruto, com tradução para o idioma francês. Publicou muitas outras obras em francês e latim, e logo foi reconhecido como o melhor impressor de seu tempo. O trabalho mais importante da Plantin Press é a Biblia Regia, publicada entre 1568 e 1572. Suas edições da Bíblia em hebraico, latim e holandês, o Corpus Juris, clássicos latinos e gregos, e muitas outras obras produzidas neste período são famosas por sua bela execução e precisão. Ele então, planejou uma empresa muito maior com a publicação de um Biblia polyglotta, que viria a corrigir os textos originais do Antigo e Novo Testamento com bases científicas. Apesar da oposição clerical, ele foi apoiado pelo rei Filipe II da Espanha, que lhe enviou o aprendiz Benito Arias Montano para liderar a produção. Com a ajuda de Montano, o trabalho foi concluído em cinco anos (1569-1573). Este trabalho lhe rendeu pouco lucro, mas resultou na concessão do rei Filipe em lhe dar o privilégio para imprimir todos os livros litúrgicos católicos (missal, breviários, etc) para os estados governados por ele.

Além da Bíblia poliglota, Plantin publicou muitas outras obras, como as edições de Santo Agostinho e São Jerônimo, as obras botânicas de Dodonaeus, Clusius e Lobelius, e a descrição dos Países Baixos por Guicciardini. Em 1575, sua imprensa tinha mais de 20 prensas e 73 operários, além de um número similar que trabalhava para ele fora de sua oficina.

Em 1562, enquanto Plantin estava em viagem a Paris, seus funcionários imprimiram um panfleto herético, resultando em seus bens confiscados e vendidos. Parece, no entanto, que ele recuperou muitos dos bens que lhe foi tirado. Entre os amigos estavam dois netos sobrinhos do tipógrafo italiano Daniel Bomberg, que forneceu-lhe finos caracteres tipográficos hebraicos provenientes de renomadas imprensas venezianas.

Em novembro de 1576, os espanhóis saquearam e parcialmente queimaram a Antuérpia. Plantin estabeleceu uma filial de sua empresa em Paris e, em 1583, procurou por outros tipógrafos na recém construída Universidade de Leiden, na Holanda.

Por mais de 200 anos a Officina Plantiniana teve um monopólio, concedido pelo papado, para impressão de formulários litúrgicos. Embora aparentemente fosse um membro fiel da igreja católica, Plantin foi um defensor de outras crenças. Hoje é comprovado que, muitos dos livros heréticos publicados naquela época, vieram de suas prensas.

O museu abriga exemplos de ferramentas utilizadas na época e mais de 30.000 volumes em sua biblioteca.

No sótão está a oficina e ferramentas de fundição.

Moretus e seus descendentes continuaram a imprimir muitas obras na Officina Plantiniana até 1867.

A empresa começou a declinar na segunda metade do século XVII. Permaneceu, no entanto, na posse da família Moretus, que deixou toda a gráfica intocada.

Dizem que, assim como o impressor francês Robert Estienne, Plantin colocava provas de impressão dos seus trabalhos em frente ao seu estabelecimento e prometia recompensas a quem conseguisse encontrar falhas nos seus trabalhos. Dentre os amigos e colaboradores de Plantin estava o pintor Pieter Brueghel.

A mansão Plantin foi construída em torno de um lindo jardim central. Há também uma coleção de livros e gravuras; quartos luxuosos dos proprietários, paredes das salas decoradas em couro dourado – técnica utilizada com uma fina camada de ouro, onde se pode ver a textura da pele por baixo –, pratarias, porcelanas, e muito mais.

Para ver mais fotos do Museu Plantin-Moretus, acesse nossa página no Flickr.

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Um agradecimento especial à nossa amiga Samanta L., que nos levou até o Museu. Se não fosse sua ótima sugestão, dificilmente teríamos visitado este magnífico lugar. Para nós, o diamante da Antuérpia está aqui. Valeu, amiga!

Além disso, para escrever este artigo consultamos e traduzimos livremente conteúdo das seguinte fontes:
Plantin-Moretus House-Workshops-Museum Complex (Unesco)
Plantin Press (Wikipedia)
Christophe Plantin (Wikipedia)